sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Retrospectiva 2013 ... Tempo , o vilão?


Tic-Tac ... quase não temos mais relógios que fazem esse som. Mundo e vida digital, com prós e contras,  como tudo nessa vida.

As vezes penso que poderia chorar por horas, mas tenho muita coisa pra fazer, e então deposito as lágrimas em algum lugar da memória, e armazeno para a próxima oportunidade.

Hoje pensei que talvez pudesse fazer isso,  chorar e chorar todo esse nó ,mas resolvi optar por me desmanchar em palavras, na reflexão desse senhor implacável, que insistem em afirmar que somos nós que o governamos.

Faltam 4 dias para o final deste ano. Muita coisa aconteceu no mundo, no país, na vida das pessoas. Crianças nasceram, pessoas morreram, grandes negócios faliram, cidadãos sem nome enriqueceram, tragédias levaram vidas e assolaram cidades. Algumas coisas saíram do plano, outras, do controle.

Eu, particularmente, não cumpri toda a lista que fiz em dezembro de 2013. Errei e acertei nas minhas escolhas, fiz boas amizades, dancei , mas não tanto quanto queria e precisava. Vi amigos, mas não como eu sei que precisava. Estudei, aprendi, amei, me decepcionei, mas também fui muito feliz.

Fazer retrospectiva pode até ser um processo dolorido, dependendo das experiências vividas. Pra quem perdeu alguém amado, pra quem sofreu com doença... Mas a avaliação de todo um ano precisa  ser considerada. Passado não volta, glórias e fracassos, estão lá: na história; Mas podemos aprender com ambos.

Mas, o que fazer com este tempo, que corre louco, parecendo um vilão, inimigo, que nos espelha a incapacidade que temos de lidar com tantas e diferentes situações ao mesmo tempo, nos jogando ao estresse ou depressão?

Que fazer quando o trabalho não terminou, o filho quer o direito ao colo, a mãe idosa requer atenção, o marido cansou de tantas dores de cabeça à noite, e o seu ginecologista se aposentou, passou sua ficha pra um outro médico que você nem sabe o nome?

O que dizer quando você mal se dá conta dos dias, percebe o mês pelo ciclo menstrual , e só conta o tempo pelos presentes das comemorações? O presente da mãe, o ovo de chocolate, a lembrança do pai, o brinquedo da sobrinha do dia da criança, e de novo o chester que prometeu levar à casa da tia...

O tempo nos ameaça. Somos dele, senhores? Se assim procede, a culpa é mesmo minha de não ter visitado meu irmão durante todo esse tempo? De ainda não ter publicado meu livro, e feito o mestrado? A culpa é minha se perdi o aniversário da melhor amiga, e deixei de frequentar a academia? 

Rendo-me ao aceitar que somos sim, responsáveis por muitas coisas. E é bom que sejamos mesmo. daquilo que temos controle. Do controle da agenda, da definição de prioridades, de escolher entre a reunião de trabalho urgente ao filho que acabou de se separar, e precisa desesperadamente de um abraço. Prioridade?Organização de prioridades. 

Sei que não damos conta de tragédias. Chuva, neve, tornados, uma série de fenômenos da natureza que acontecem pelo mundo. Doenças repentinas...  Para as outras questões, acredito que o que precisa ser feito é  viver o presente intensamente , planejando a curto, médio e longo prazo as  prioridades. 

Eu vou fazer mais uma lista... 
Em 2014, quero  menos preocupação com que o outro pensa sobre minhas escolhas e atitudes, e mais interação com meu universo. É tempo de me conhecer mais profundamente.
Quero estabelecer prioridades e superar meus medos. 
Quero aprender a pilotar essa máquina poderosa, que não espera você ficar pronto pra começar sua corrida.
O tempo não espera, nem o choro, nem a vela. 

Em 2014, quero estar perto daqueles que me tem amor, e  de quem eu tenho amor.
A vida pode ser simples e bela.
Quero aprender mais, coisas novas, superar minhas expectativas.
Quero dobrar minha fé.
Quero dançar muito!
Quero  ser ainda mais feliz!

domingo, 17 de novembro de 2013

Sapato Apertado


"Fica descalça!" -  falou Ana irritada quando eu reclamava dos meus sapatos.




Mulheres sabem admirar um lindo sapato. Os shoppings estão cheios das sapatarias, das chiques às comuns. A gente pode até não comprar,  mas fica grudada na vitrine. As consumistas mais ousadas, entram, calçam todos , olham pelo espelho enquanto caminham... Sapato bonito no pé é um charme. Se o cartão de crédito permitir, quanto mais sapato melhor!



O que acontece é que a estréia de um sapato muitas vezes se dá em festa, casamento, evento especial. E junto com a roupa elegante, vai os sapatos nos pés. No entanto, antes de chegar na festa, os pés já avisam que algo não vai bem. Mas é preciso continuar, que a cerimônia nem começou, e voltar pra casa e trocar de sapatos, está completamente fora de cogitação.Lá pelo meio da cerimônia, os dedos do pé parecem que incharam e que estão muito maiores que o sapato. Mas é impossível emitir qualquer cara ou gesto, tirar o pé do sapato, nem pensar!!! A cerimônia acaba, mas ainda tem a festa e as danças.






Enfim, ao chegar em casa, os pés doem,  estão inchados  e com bolhas vermelhas em todos os dedos. Mas  os sapatos são mesmo lindos de se ver! Apesar de serem lindos, caros e chiques, os sapatos  simplesmente não acomodam bem . Os pés dormirão na salmoura, e os sapatos irão para o armário, esperar a próxima noite de gala. Afinal,  com certeza, basta colocar um jornalzinho molhado dentro dele e logo o sapatos se adaptarão a forma dos pés... Que loucura pensar que isso se enquadra às nossas vidas, que os pés somos nós, os sapatos, os absurdos que suportamos por aparência... 





Ana, minha amiga,  estava me contando que certa vez, ao voltar  com sua família de um passeio, sua filha avisou que seus pés doíam, e quando tirou o sapato, seus dedos estavam em bolhas. Ana repreendeu-a, pois a filha suportou longa dor antes de avisar e se livrar dos sapatos. Ela disse, "Filha, nunca mais faça isso, não se acostume com a dor. Se seus pés estão doendo, troca de sapato, se não tem outro na hora, fica descalça!!"






Uma comparação perfeita e que se aplica a vida da gente. Não sei você, mas eu já suportei por muito tempo os meus  pés em carne viva. Agora me diga: O que faz uma pessoa permanecer na dor, incomodada, sofrendo? São algemas que as prendem? 


O que justifica alguém ficar  em um emprego que não lhe dá prazer algum? dinheiro? Medo? Estabilidade? O que faz um homem ou mulher deixar-se aprisionar à um relacionamento sem vida, tesão, AMOR e alegrias?  Será Religião? Convenção, medo,filhos, pavor da solidão?


Como sujeitar uma vida, criada por Deus para ser feliz, e usar o  livre arbítrio para viver em uma prisão de dor? Um caos invisível, dedicar os anos à uma morte lenta, um veneno tomado em pequenas doses...  A pergunta é: Porquê? Pra que? É uma missão? Em nome de quem?






A missão de cada um de nós devia ser, estar em paz, ser feliz, e deixar a tristeza para os momentos em que ela se justifica. Digo com a  experiência  de quem usou sapatos apertados  por longo tempo:  eles não valem a pena... Com o comodismo a vida vai descolorindo. O  mar, o céu, a lua, o sol, estrelas, o navio que se perde no horizonte , tudo tem o mesmo cinza... Lembro de um tempo, que não recordava como era o som da minha própria gargalhada. Para sorrir basta esticar os lábios, e qualquer um consegue fazer. Recordo também de andar vagando... Um andar sei lá pra onde, um tanto faz diário, um desespero quieto. Isso não tem razão de ser... não permita que sua vida perca a cor. Os cemitérios são cinzas.


Por um tempo,aprisionei-me, por que quis, em um par de sapatos, e me acostumei à uma dor, como se não fosse possível sobreviver sem ela. A tristeza é viciante, perigosa e tem uma trilha própria. É uma areia movediça que vai  te engolindo.aos poucos.





Ninguém nasceu pra ser triste. Tristeza tem seu lugar na nossa vida, como as perdas, decepções... Mas não é nosso porto, destino, modo de vida. A tristeza  contínua é uma opção, como andar com sapatos que incomodam. Nós não  precisamos fazer o que não gostamos, estar com quem não queremos, deitarmos com quem não temos nenhum tesão, beijar  e viver sem amor!!!!!


A vida é breve, ela acaba assim, num piscar de olhos, em um estalar de dedos. Não dá pra gastar tempo, querendo ser o que não se é, fingindo sentir o que não se sente, esperando que o outro mude por você. Não vai acontecer. Viva você sua felicidade!





É domingo, um quase dezembro...  minha árvore de natal já está pronta. Na minha janela está o sapatinho vermelho pendurado, esperando às vésperas do natal... e o tempo nublado me convida para um dia maravilhoso. Não há nada que me aborreça , e estou muito de bem comigo. Confesso que meu sapato não está lá essas coisas, e quem olhe pode até dizer que meu sapato é feio, que sou relaxada. Mas, como já aprendi a não ligar pro que os outros dizem, estou bem assim. Inclusive hoje, estou com uma vontade imensa de ficar descalça, ir lá pra fora e sentir a chuva me molhar inteira!


Bom domingo, pessoas!
 Trate seus pés com mais carinho...
Tira esse sapato, vai ser feliz!!!

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Palavras Entornadas


Quando eu era mais nova, tinha  receio de me expor. Não gostava de dizer o que eu pensava, e quando o assunto me envolvia,  só contava  o que fosse de mais belo e conveniente. Escondi como pude os problemas que tive. Mostrar que a minha vida era um conto de fadas, era importante, porque eu queria acreditar nisso também. 


Vendo agora, de uma distância considerável, percebo que tive uma infância e adolescência vivida no mundo da lua. Eu não calculava nenhuma possibilidade de qualquer coisa sair errado. Eu confiei integralmente no comercial de Margarina,  no ideal de família feliz, filhos bem humorados, marido carinhoso, café quentinho em mesa pronta, todos aos beijos e abraços às seis da manhã. 


Quando estava casada com o pai do meu filho,  tinha tanto pavor de admitir minha tristeza, que escrevia por símbolos em meus próprios cadernos. Absurdamente, deixava pistas de que algo ia mal, mas não era clara nos depoimentos de desabafo. A ideia era disfarçar até da minha consciência, pois ela , nem nenhuma célula do meu corpo,  aceitava viver fora daquilo que eu havia me preparado uma vida inteira. 


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Não  acordo  um dia na vida de mau humor,  adoro dançar, brincar mas choro como criança quando vejo meu castelinho de areia , todo incrementado, com torres, janelas, e até ponte levadiça, sendo levado pelas espumas das ondas, depois de tanto trabalho pra construir.


O tempo passou, e ele foi generoso comigo. Me deu lições inesquecíveis e essenciais para manter o equilíbrio na corda bamba. 


Se antes, a dor e a tristeza viravam doença e silêncio, hoje  os sentimentos se tornam palavras entornadas . Algumas vezes, o choro vira poesia. O poema é o sumo mais precioso da dor. Assim, exponho minha própria vida e sentimentos nesta tela, e compartilho com olhos invisíveis a minha intimidade.


Tem quem  se espante, quem critique e não goste do que faço, nem de como escrevo. Pra esses o x no topo da página resolve, e terminamos por aqui. Cada vez que escrevo, revelo. Isto é apenas  uma parte do meu avesso. Quem lê, mesmo sem querer, me enxerga por dentro. 


Apesar das diferentes  reações  , todos nós sentimos a  alegria, o prazer, o entusiasmo,  o sentimento de perda e  a dor  . Um grita, outro cala. Enquanto um dá  festa, o outro passa a noite em vigília. Enquanto um enlouquece,  o outro escreve.   As emoções estão conosco tal como as necessidades fisiológicas do príncipe e do mendigo. Independe de raça, religião, nacionalidade, prestígio social, elas são nossas companheiras. Somos mortais e frágeis na emoção. Diferentes, porém iguais.  No início e no final deste jogo, estamos todos empatados. Nascemos nus, chorando, desprotegidos, dependentes, e morremos sozinhos. 


Nesse intervalo,entre o milagre e o mistério,  todos passamos por adversidades. E não há escape. A vida é roda gigante, uma hora lá em cima, outra cá embaixo. Quem dera pudéssemos fugir dela ... Entretanto, o orgulho, a vaidade e  soberba  de alguns fazem com que acreditemos que eles só podem ser deuses disfarçados,  afinal do alto de seus lugares, com dedo em riste, mostram sua soberania ,  alegam não cometer erros, não sentir dor,    ter a família dos sonhos...  Seus filhos  são incríveis, passam em primeiro lugar em todos os concursos, suas vidas perfeitas,  no  sexo tem  orgasmos múltiplos,  e por aí segue a lista.


E  vem  eu aqui, mera mortal,  escrever e expor  no virtual minhas fragilidades. 


Embora eu tenha mudado, e fale sem traumas sobre o que penso e sinto, é  muito difícil, praticamente impossível,  me  ver  de rosto triste,  chorando pelos cantos. Não sou de lamentos. De fato, tenho um bom humor invejável, pergunte a quem convive comigo. No entanto, quando me encontro   na companhia  única do meu pensamento, caminhando pela rua, na sala de casa, segurando uma taça de vinho, eu choro. 


O que me faz chorar não é  sofrimento, mas  uma reflexão constante da brevidade das realidades, e das emoções. É como se toda a vida fosse subjetiva. Os minutos à frente do ponteiro do relógio, escondem surpresas. Ando olhando através dos objetos de minha casa,  cada um deles tem  história, significado. Penso que tudo parece um sonho, um filme sobre a máquina do tempo,  do protagonista que foi ao passado, retirou dali uma relíquia e em segundos voltou ao presente...  As situações e as pessoas mudam num tempo tão curto, que o passado e o presente se misturam. É hora de usar o equilíbrio que a vida  me ensinou.


Sou intensa, apaixonada, envolvida.  Vivo  meus dias, sentindo o pulsar do coração. Eu vivi relacionamentos de amor, que pensei que fossem eternos. havia promessas tão vivas que chacoalharam o meu  corpo inteiro, decisões sérias que tomei mediante ao que acreditei que fosse real. E era, mas não temos o controle do mundo.


Há  momentos  em que  espalmo as mãos contra o rosto e  seguro a explosão contida  em meus olhos.
Um nó que fecha a garganta, um quase desespero. Diante das reflexões, resolvo sentir todo o silêncio da  casa, sem televisão, rádio , telefone ,internet. Me escuto. O som de dentro de mim,  é o ritmo do Soul, sinto vibrar... A alma  reclama, questiona, duvida e deseja, insiste em  cantar que tem  direitos... Uma complexidade absurda de pensamentos, e uma vontade gigante, explosiva, descontextualizada   de fazer a vida dar certo. 


Sóbria, relembro o pacto da amizade e parceria que jurei. que teria a mim.  Das promessas que fiz em silêncio, nas  inusitadas adversidades que pensei jamais passar. O hábito de ser fiel a mim mesma prevalece. Eu desperto.


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Se a casa parece mais silenciosa, e eu tenho que readaptar os meus planos pessoais  a curto e médio prazo... e apesar dessa parte machucar, eu sei que a vida se encarrega de surpresas maravilhosas, e que para os limões espremidos e azedos, há água, gelo, açúcar e se o momento for apropriado, vale até a cachaça pra virar caipirinha! 


A vida me sacudiu por mais de uma vez, e pensando bem foi uma grande sorte! As letras da história  que  eu havia planejado , balançaram, desgrudaram do meu sangue  e  caíram  aos montões pelo chão. Elas  se espalharam de forma que  eu não poderia juntá-las mais. Assim, me vejo obrigada   a reescrever  minha  história, com   novas fontes e tamanhos de letras.  Letras douradas, prateadas, azuis, vermelhas. Pontos de exclamações e reticências aos montes. Nada, nada de ponto final. Vida que segue. Ela continua.


s .





sábado, 26 de outubro de 2013

Avenida Presidente Vargas - Histórias que se Cruzam



Essa noite meu pensamento não está em mim, nas neuroses que provoco, nem do sofrimento que julgo já ter passado... Hoje o assunto é muito mais importante, urgente, desesperado.

Estava na Avenida Presidente Vargas, uma das mais importantes da cidade do Rio de Janeiro. Atualmente é palco de manifestações de todos os tipos, uma luta que apenas começou.
A Avenida Presidente Vargas exibe sua riqueza e majestade , mas nela milhares de histórias se cruzam.

 Estava atravessando uma das 4 pistas da Avenida , quando minha história se cruzou com a de Rosiane. Eu estava esperando o sinal ficar verde para os pedestres, quando vi uma menina atravessando  no meio dos carros. Claro, procurei em volta sua mãe. Alguém!!! Pois no meu mundo, esse que ainda acredito, crianças não andam sozinhas pelas ruas, nem atravessam a Presidente Vargas sem darem à mão pra algum adulto. Os carros desviaram dela. Quando a menina assustada chegou perto de mim sentou no meio fio, cansada.

O sinal abriu e as pessoas atravessaram. Eu não consegui. Que desespero ver aquela menininha perdida, sozinha, que quase foi atropelada!!!!

_ Cadê sua mãe? - essa não é a pergunta clássica que se faz à uma criança perdida, sozinha?
_ Morreu.
_ Morreu? - Pergunto eu, como se as mães não morressem, como se o mundo fosse mesmo justo e lindo pra todos.
- Morreu.
_ E você está com quem?
_ Sozinha?
_ Como sozinha? Você não pode estar sozinha. - Porque não entra na minha cabeça uma menina sozinha na rua, meu cérebro rejeita a informação.
_Onde você mora?
_ Na rua.

Só que a menina estava limpa. Embora de aspecto muito humilde, era notório que não morava na rua. Então, após insistir ela me disse que havia fugido de casa, da comunidade que vivia, pois a irmã disse que a devolveria para o pai que mora na zona oeste do Rio. Ela não queria voltar para o pai, pois o pai a espancava.

O sinal fechou e abriu várias vezes enquanto eu e a pequena conversávamos. O mundo parou ali, pois ela era o mais importante. Não importa como, onde e o porquê. Estava diante de mim uma menina, criança. 

Naquele momento, já tinha algumas informações. Eu poderia ter feito como as dezenas de pessoas que passaram por ela, e ter seguido meu caminho. Mas parei e perguntei. E agora? Dizia tchau? Deixava a criança atravessar as outras 2 pistas, sendo que ela nem sabia se orientar pelo sinal de trânsito?

Meu filho tem 15 anos, e é automático que minha mão busque a dele, quando atravessamos uma via como a da Presidente Vargas, ainda que ele não queira, é natural que eu faça isso. Mas, aquela criança estava desamparada.

_Vem comigo, que eu vou te ajudar.

Na hora que falei aquilo, só pensei que ela não podia permanecer no meio da rua. Logo achei que ela podia estar com fome, sede... enfim, o desespero tornou-se meu. Enquanto conversava com ela, de mãos dadas, sentia minha voz trêmula, porque estava emocionada. Eu não queria estar vivendo aquilo. Sim, eu sei que o Rio está cheio disso, que o mundo está imerso na violência contra as crianças, que "não vou salvar o mundo." mas algumas coisas ficaram em mim sobre o que aprendi sobre as Escrituras. Ela é o "meu próximo".

Compramos uma pipoca, e depois passamos pra comprar mate e pão de queijo. Enquanto isso, ela me contava sua história. Rosiane é uma menina adorável! Não está estudando no momento, mas sabe ler e escrever. Me contou o nome da tia da escola no tempo que estudava, sobre os bairros que morou, das vezes que fugiu de casa. Era a sexta vez que fugia, segundo ela. 

Ela contou que o pai a agredia, por isso veio morar com a irmã. Mas a irmã brigou, e disse que a levaria para o pai. A menina se assustou e fugiu. Foi quando a encontrei. Rosiane falou que a irmã a tratava bem, que trabalhava... mas que ficou com medo de ir no pai.


O tempo que conversei com ela, contei quem eu era. Falei que era professora, diretora de uma creche, e que a levaria para um lugar que a protegeriam. Que criança não podia andar sozinha, pois criança precisa ser amada e protegida. Falei que a rua era perigosa, e que podiam fazer maldades com ela. Ela escutava, concordava e no final dizia: "mas meu pai me machuca."

 Rosi, no conselho, depois que ficamos sozinhas na sala




Eu a levei para o Conselho Tutelar da Rua Sacadura Cabral. Subimos as escadarias, e assim que ela olhou a porta, me abraçou e disse que não entraria. Ela já havia estado lá com a irmã, pois já havia fugido.

O senhor que nos atendeu, Edmilson, foi solidário e nos encaminhou à uma sala. Eu disse quem era e pedi se podia ficar. Ele fez perguntas, e ela respondia, explicava. Achei curioso quando ele perguntou a data de aniversário, e ela ficou encabulada. Pra uma menina que sabia tantas coisas, não era possível que não soubesse seu dia de aniversário.

-É que tá errado, tia!!!

Então entendi o que ela quis dizer, ela nasceu em um dia e foi registrada em outro. 


_ Pode dizer o que você sabe?

Então ela disse, dia, mês e ano.

Tudo parecia ir bem, quando uma mulher chegou. Aos gritos. Vou repetir: Aos gritos!
A mulher não era um visitante, não era uma mãe ameaçada, nem uma adolescente em crise. Não sei o nome dela, porque não falou comigo, não quis saber quem era, não se apresentou. Mas trabalha lá e mandava!

_Eu conheço essa garota!!! Cadê sua irmã? -olhava pra menina
_ Essa menina=continuou ela - essa menina fugiu, ela não ´´e daqui, essa garota é Itaguara, é abrigo. Foge toda hora. Tem que ir pro abrigo!

O senhor saiu da sala. A senhora continuou: 
_Você sabe que você tem que ir pro Conselho de Queimados. Essa garota tem que se tratar!!! 

Doeu em mim. Imagina em Rosiane... Será que ela ainda sente?

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Foto que Rosi tirou de mim, com meu celular, antes de eu ir embora.


Este então era o veredicto que a senhora do conselho deu pra menina : Doença! "A menina tem que se tratar!"


Eu não sei... Sou professora há quase vinte anos. Nunca tive turma que fosse tranquila, eram crianças de comunidade, algumas delas com problemas muito sérios. Nunca gritei com elas.  O grito é algo que fere e não se justifica.  Hoje, quando as vejo, é uma emoção. Pra que o grito serve? Pra ameaçar, mostrar poder?Realçar autoridade?


Na minha cabeça, a menina precisa ser acolhida. Eu disse pra ela que lá era o lugar que as pessoas ajudam as crianças. Talvez olhar pra ela e perguntar: "O que houve dessa vez?" "Porque você fugiu de novo?" "Você tá bem?" 


Claro que entendo que o Conselho é um lugar que recebe todo tipo de crianças e adolescentes, inclusive infratores, meninos violentos... Tenho certeza que deve ser complicado. Mas quando se escolhe um emprego assim, sabe-se o que é. Não está satisfeito, procura outra coisa. Lidar com vidas, principalmente com a de  crianças e adolescentes com problemas, requer estudo, postura, ações mas me desculpem, é preciso mais, é preciso humanidade, solidariedade, amor, paixão, sede de mudança social, esperança na vida, compaixão.


Será fácil perder a mãe aos 8 anos, e ter um pai que espanca? Será fácil ver todas as crianças por perto indo à escola, enquanto você assiste sem poder ir? Será que é bom escolher à rua ao colo quente, ao abraço , ao conforto da família?


Fiquei pensando... Peguei Rosiane pela mão, e andei com ela cerca de meia hora pelo Centro da cidade. Fomos da Presidente Vargas, altura do Campo de Santana até a Praça Mauá, onde fica o Conselho. Eu simplesmente a peguei pela mão. Fui eu, mas poderia ser uma pessoa do mal, e ela teria ido também. Poderia ser agredida, vendida, e outras coisas terríveis, ou não?


As crianças pertencem a todos nós, e precisamos protegê-las.


Ninguém mais apareceu na sala onde eu estava com a Rosiane. Eu precisava ir. Ela segurou minhas mãos e pediu que eu ficasse. Pedi a ela um telefone, ela me deu  o de uma tia que morava na zona Oeste. Eu escrevi pra ela o telefone da creche que trabalho, e pedi que ela escondesse entre as suas cartas de brincar, guardadas em um saquinho. Era a única coisa que Rosiane levava em sua fuga. Um brinquedo de cartas. 


Abracei ela, e disse que ela poderia ficar tranquila, que logo a irmã dela iria buscá-la. Na verdade, foi realmente o que pensei.


Fui fazer meu trabalho, depois retornei a minha casa. Quando fui deitar, resolvi ligar para o Conselho. Como o Conselho fecha cedo, há um telefone disponibilizado para falar com o conselheiro plantonista. Edmilson atendeu e disse que a menina tinha ido para o abrigo.


Que bom que peguei aquele telefone com a Rosiane. Liguei pra sua irmã, já era 22h. Ela me atendeu, eu expliquei  o ocorrido e em conferência conversamos eu, ela e a irmã que ela morava. Ninguém avisou a elas.  Dei a elas as informações que tinha, o nome do abrigo, do conselheiro que nos atendeu.


Esse é procedimento padrão? É assim mesmo que se faz?
Elas não tinham que ser avisadas, ainda que a menina continuasse no abrigo?
Até os presos tem direito à uma ligação, não é? ou não!
Juro, não sei. To confusa, passada.


A menina só tem dez anos, e não oferece perigo.


Tenho meu pai, minha mãe, nunca apanhei, e tantas vezes, com meus 37 anos de idade, eu preciso de um abraço, colo. Porque uma menina de dez anos, com a mãe falecida e com o pai alcoólatra e espancador não precisa de um pouco mais de tolerância? Ela é mesmo um caso perdido, sentenciado, sem esperanças?


São questões...

Isso aconteceu ontem.
Ainda não liguei para as irmãs. 
Ainda não sei o que aconteceu com a pequena.


Criança está em primeiro lugar.





domingo, 20 de outubro de 2013

Drogas para Alma.


Não é um dia incomum, é apenas um domingo a tarde normal. Estou em casa com meu cachorro ao meu lado, ele dorme enquanto escrevo. A televisão está ligada a toa, e meus pés descansam em uma cadeira, o meu corpo está relaxado no sofá.


Não foi uma semana fácil, precisei lutar contra um desânimo eminente, e insisti na prática da esperança. Ainda assim, posso dizer que em vários momentos me permiti sorrir. Não julgo a pessoa, nem os motivos que fizeram com que eu me magoasse. Tenho construído a ideia de que não somos perfeitos, nem as relações, e que é burrice apostar em romances ideais, em pessoas sem defeitos. Viemos da terra e do pó, para lá tornaremos. Nossa caminhada é aprendizagem, desconstrução, reconstrução. Não somos santos, nem deuses. A capacidade de prever é limitada. Não somos, estamos. E portanto, a sabedoria clama que julgar não é solução. A chuva, o sol, as tempestades, os ambientes, livros, filmes e experiências afetam nosso comportamento, e aos poucos nos transformamos. Que bom! Seria péssimo nunca mudar de opinião, nem de estilo, de casa. Estamos.





Não posso ser hipócrita e me excluir da certeza de que todos, em algum momento da vida, falham. Imagino que com consciência ou não, magoei pessoas, até mesmo àquelas que me são caras. Isso inclui amigos e família. Já errei sabendo das consequências, já vacilei por motivos egoístas , por inexperiência, por escolhas equivocadas. Deste modo, sei que nessa roda gigante, também sou afetada. Muitas vezes sou magoada também.


Sinto, quero, planejo porém sei que ter meus sentimentos satisfeitos, meus desejos saciados, e meus planos concretizados não dependem só de mim. Não controlo. E assistir de camarote, planos se desfazerem como gelo, requer coragem. Coragem pra permitir sonhar de novo, planejar de novo, já sabendo que tudo pode se transformar em nada em menos de cinco minutos. As vezes basta uma conversa , uma visão para que tudo derreta.


Eu fui magoada. O meu sentimento não é contra o causador, nem contra a causa. Apesar da dor parecer subjetiva, e não ser possível enxerga-la nem com o mais avançado microscópio, a mágoa tem cor roxa, é um machucado da alma. Quando o roxo é no olho, no rosto, no corpo usamos compressas, remédios fabricados para amenizar a dor. Dor na alma também tem as drogas que tornam a ferida menos dolorida.





Tive remédios essa semana. Compressas mornas, massagens, carinhos. Abraços, palavras e chocolates. Amigos de longe e de perto, que  me dizem que tudo está bem, e me  passam uma confiança tão certa que de fato, chego a crer que há mesmo muita alegria para se viver.  E ainda que meu machucado lateje, se mostre presente, percebi que tem tanta gente maravilhosa perto de mim, que gosta de mim, do jeito que sou.


É difícil fazer reflexões quando a vida é puro fevereiro. A festa faz cegar os olhos, e influencia a percepção. É nas horas de perda,  que conseguimos alinhar expectativas e realidade, e olhar pra terras desconhecidas. A gente descobre resiliência, e aprende um pouco mais sobre humanidade. Quando apalpamos nossa fraqueza , entramos em contato com a matéria real que nos define, o pó das limitações. E a partir desse encontro, que gera fogo, e queima, mergulhamos no oceano de nossa capacidade de reconstrução.





A dor tem suas compensações. Ela nos torna melhores, mais fortes, e sábios. E o melhor disso tudo, pois não há mal na vida que não tenha seu lado bom, é perceber as pessoas generosas, gentis, que caminham comigo, nessa peregrinação misteriosa que é a vida.  Apesar  das mágoas que causamos nos outros, e das que os outros geram em nós, sou testemunha de que a vida é uma delícia, que tudo vale a pena.E que há surpresas escondidas, que quando encontramos é como banho de cachoeira no mais forte calor. Sim, mesmo no deserto podemos encontrar um oásis. E como é bom!


E que venham novos sonhos, novos planos, novos amores. Minha essência não me deixa perder o sorriso, nem a poesia. Ainda ando precisando de compressas mornas, mas logo toda a mágoa virará lembrança, e eu continuarei trilhando meu caminho.

domingo, 22 de setembro de 2013

Margaridas, Piercings e Alargadores


Esse texto nasceu inspirado em uma quinta-feira, bem no meio do mês de setembro, no inicio da primavera. A correria da manhã foi ainda mais intensa, e não imaginava que viveria tantas emoções em um só dia.

Logo cedo fui à CADEG, mercado de flores,  comprar algumas violetas e arranjos para o evento da caminhada pela paz que faríamos no entorno da creche que trabalho.




Entre algumas flores já compradas e com as mãos repletas de bolsas, vi dois vasos de margaridas brancas, e me encantei. Pensei, esses comprarei para presentear. Enquanto pagava a conta e me ajeitava entre dinheiro, vasos e bolsas meu celular tocou. Era meu filho querendo saber se realmente iríamos no shopping para colocar o  alargador em sua orelha.

Eu já havia conversado com o profissional um dia antes, e fiquei de dar a resposta ao meu adolescente. Respirei e disse que sim, que iria buscá-lo mais tarde para levá-lo. E então, cheia de coisas, voltei para a creche como uma florista extremamente desajeitada. Algumas flores nem resistiram a minha falta de jeito, mas as margaridas sim!

Lilia Martins, que trabalha comigo logo que viu as margaridas, tão pomposas e brancas, repletas dentro do vaso, admirou!!! Combinamos as pessoas que presentearíamos. Mas, logo chegou uma funcionária e disse que não gostava de margaridas, pois lembrava túmulos. Em pouco tempo, chegou outra, e então fez um alarde, que aquilo era flor de cemitério, e cheirava à defunto. Eu e Lilian dissemos que não, que eram lindas, mas as duas teimaram que eram flores de cemitério. Nós então desconfiamos da nossa própria opinião.

O dia passou rápido enquanto enfeitávamos a creche para o dia seguinte.Já as margaridas ficaram lá no canto, aguardando o destino de suas brancas pétalas. À noite , conforme combinado, passei de táxi para buscar Vinicius, e fomos fazer seu alargador.

É engraçado que para as mesmas ações, significados diferem. Quando comentei com alguns amigos que permiti que meu filho fizesse a perfuração na orelha, tive respostas negativas, caras feias e conselhos dos mais variados.  Há pessoas que não sabem da história completa, mas vestem-se  de pequenos deuses com cetro na mão, julgando os bons e os maus, os santos e pecadores. E não se constrangem em falar em alto e bom som suas verdades absolutas. E creiam-me ouvi até: "Vai botando alargador aí, que daqui a pouco estará alargando outro lugar." E quem disse, falou para mim e para meu filho. E esses deuses, saem por aí citando o céu e o inferno que inventaram, e os merecedores destas eternidades.

Tem uma parte oculta na história das margaridas e do alargador. A creche que trabalho fica no bairro Caju, do Rio de Janeiro e é rodeada de cemitérios. A maior parte dos funcionários e professores  vivem no Caju e passa pelo cemitério todos os dias. Débora, que fez maior escândalo nasceu e cresceu no bairro. As margaridas são vendidas em frente aos cemitérios, e seu cheiro é exalado nas ruas.

Embora eu  trabalhe no Caju há anos, minha vivência é outra. Fui à cemitérios poucas vezes, e não tenho o cheiro fúnebre das margaridas registradas em minhas memórias. Lilian, também não. Só conhecemos a beleza e suavidade. A diferença de nossos registros, nos deu significados diferenciados. A história de cada vida, trouxe à tona que margaridas para moradores do Caju, não tem a mesma beleza que tem para mim. E é singelo poder ter lições assim, pois faz com que desconstruamos conceitos arraigados, e consigamos entender que cada pessoa precisa ser respeitada.

Quanto à perfuração da orelha do Vinicius, seu sentido é profundo pra mim. Desde que meu filho nasceu, durante sua infância, nossas vidas foi em hospitais. Recordo que ele tinha apenas um aninho e estava internado no Hospital dos Servidores. Lá, ele foi tão furado, que não havia mais lugar no corpo para colocar o soro. A todo o tempo, eu estava colocando paninhos embebecidos em água morna para diminuir o inchaço de suas pequeninas mãos, antebraços e pés , pois como era pequeno e se mexia bastante, a agulha sempre saía da veia e entrava no tecido, tornando-as grandes, inchadas.


Meu Vinicius, ainda pequenino


Com 6 anos ele teve meningite. Foram dias difíceis, desde a primeira febre alta, diagnóstico, pulsão, internação... Todas as perguntas que fiz , lágrimas eternas... Lembro que eu o olhava adormecer, e o seu sono inocente não era respeitado pelas agulhas ... O pior dia, foi quando foram colher o líquor da medula para a cultura, afim de saber se a meningite era viral ou bacteriana. Foram necessários 6 enfermeiros homens para segurá-lo. Enquanto eu chorava ele dizia: "Mãe, você não me ama. Não deixa eles fazerem isso comigo."

Ele tinha apenas 6 aninhos. Depois da violência contra sua inocência, que nada entendia, ele fraquinho, só me olhava, rancoroso.. não falou comigo até o dia seguinte. Graças ao meu  Eterno Deus, foi viral, e não houve sequelas físicas. Ficaram nossos traumas, medos. Vinicius não aceitava ir ao barbeiro, tinha medo do branco que usavam, da tesoura. Depois disso, as vezes que precisou colher sangue para exame ou por alguma emergência, eram momentos difíceis. Os registros da memória afetam a cor, o cheiro, o local. 

Então, agora, aos 15, quase 16 ele diz que quer fazer uma perfuração na orelha. "Mas filho, você não gosta de agulha..." "Mãe, eu tenho que aprender a suportar a minha dor, preciso perder meu medo." E fomos. "Dói?" ele perguntou ao Piercer,  "Sim, dói" . E então escolheram o tamanho. 


Vinicius mexeu no celular e meu deu: "filma" Claro que não. Nem entrei na sala. Fiquei conversando com as meninas tatuadas, tentando esquecer minha aflição. Lembra dos registros? Não esquece o contexto... Mas quando ele saiu da sala com a orelha inchada, vermelha e o sorriso no rosto, me deu um orgulho tão grande. Ele superou seu medo, e tenho certeza que ele venceu a dor do passado, ali, naquela sala.  

"Tá lindo!" Acho que foi isso que eu disse. A certeza foi o que eu disse depois: "Eu também quero"
me senti mais forte, corajosa. Acho bonito alguns piercings femininos, mas jamais pensei que de fato faria isso. Mas fiz, coloquei dois, um na orelha e outro no nariz. Achei uma graça quando ele chegou na porta e disse: "Mãe, não faz no nariz, dá bolinha, inflama.. To avisando, vai se arrepender!" 

Eu vou te dizer: Dói!! É rápido, mas não tem anestésico, e agulha dentro!!! Vinicius assistiu meu drama, porque eu choro! No final dos dois furos, o Piercer disse que o furo do Vinicius doeu duas vezes mais os meus dois juntos. 

Então, alguns acham horrível, outros acham que e questão de opção sexual, cada um com sua história... eu tenho a minha. Quantos do que julgam o bonito e o feio, o certo e o errado seguraram nossas mãos quando souberam que meu filho estava internado? Alguns, inclusive da família nem ao menos ligaram para perguntar se estavam tudo bem. 


No quesito Margaridas, não poderia mais presentear a ninguém com elas, entendi a história, o motivo. Elas estão lá, enfeitando a sala e esperando seu destino. Quanto ao alargador e aos piercings, foi uma experiência bonita e que me fez muito feliz. Tomara que nada inflame!!

Deuses com seus cetros e comandos.. eles não sabem de nada. 










sábado, 7 de setembro de 2013

Água Fria ou Água Quente ?


Depois que nos tornamos mães, toda conversa acaba envolvendo assuntos maternais. Meu filho isso, meu filho aquilo. Tem mãe que fala tão bem do filho, que chega a dar inveja. É  melhor da turma, o mais bonito, mais responsável, mais corajoso. Enfim... Coisa de mãe coruja ao quadrado. A gente sabe que não é bem assim, que toda família tem suas limitações.




Tenho apenas um filho, e fico impressionada com a capacidade das mães que criam e educam mais de um. Porque dar à luz é maravilhoso, mas educar um ser humano, requer equilíbrio, sabedoria, tempo, paciência, resignação e outras centenas de virtudes. 

É por conta dessas tantas virtudes necessárias, que nós, mulheres mães, nos sentimos culpadas. Como saber o que fazer? Quando devemos prender, soltar, silenciar, falar,dizer sim, não, concordar, discordar, ser enérgica, fingir que não viu... Como um livro de receitas seria bom... só chegar e consultar. Nem o Google consegue acertar, pois cada individuo tem suas peculiaridades.

Vinicius foi colocado em meus braços, há  quase 16 anos atrás, pela primeira vez. Eu estava grogue de anestesias, e não conseguia segurá-lo, e meus olhos fechavam enquanto minha consciência me alertava do perigo de sua queda. Foi meu primeiro medo. 

Lilia Martins, que trabalha comigo, e escuta meus desabafos diários sobre tudo, disse que seu primeiro conflito enquanto mãe, foi quando perguntaram na hora do primeiro banho: "Água fria ou água quente?" Assim, cada uma de nós, confessando ou não, temos nossos momentos de voo às cegas. 

E há alguém que consigamos amar mais que a estes pequenos e grandes?

Um dia me iludi pensando que cuidados, preocupação, e desespero eram quando os filhos eram pequenos, indefesos. Mas vejo minha mãe se preocupando comigo e meus irmãos. Ela ainda quer saber  porque me atraso, ou porque  estou tão quieta. Ela ainda faz a comida preferida do filho de 41. Também observo os olhos inchados de uma colega de trabalho, por seu filho de 25 anos em plena crise de depressão. Mãe é uma mistura de emoções. Mãe é coração, dor, paraíso e desespero enquanto viver.

Oro para que meu sim, esteja certo e meu não também. Que eu não exagere na proteção, e não libere em demasia.  Torço para que não ultrapasse nas ligações, que eu saiba dar limites.

Que eu saiba conter meus medos, e permita que ele tenha suas experiências. Que eu perceba suas inquietações e respeite seu silêncio.

Que eu entenda a fase, os hormônios, e lembre de minha própria adolescência.

Que meu amor cubra minhas deficiências, que ele perceba que embora adulta,  não sei de tudo, que erro, sofro, e quero acertar.

Vinicius, te amo profundamente.


Identidade Assumida


Nada como o autoconhecimento e aceitação pessoal. As pessoas vivem conflitadas, angustiadas, divididas entre aquilo que são, e o que as pessoas gostariam que fossem. E sofrem, mudam, perdem a essência, aquela que faz de cada um de nós, únicos no universo.

Fico satisfeita em perceber que os anos vividos, esses 37 que me definem, refinaram minha opinião sobre meu mundo, e o mundo de lá, mundo dos outros. Falo sobre minha experiência, das terras distantes, dos abrigos escuros em que sem opção, tive de conhecer. Nestes lugares, onde a solidão me acompanhava, tirei proveito do silêncio, e iniciei a descoberta da minha vida, sem medo, inteira, nua.

Quando me confrontei com o espelho, encarei minha pele, meus medos, a generosidade , as loucuras, as próprias maldades, percebi a delícia de ser quem sou. Essa mesma, com toda essa mistura de cores, desejos, tristezas e gargalhadas. Minha alma, e vontades revestidas na pele parda, nos olhos castanhos, nos cabelos alisados, nas curvas e cicatrizes do meu corpo. A vida por si só, deixa marcas.





Vez por outra, percebo...Ainda me olham de cara torta, quando passo estabanada em cima do salto alto, em roupas descombinadas. Ainda julgam se pinto o cabelo de vermelho, ou louro, ou corto. Também alguns reclamam, se abraço a criança de rua, ou a senhora que cata lixo. Gosto de gente, de suas histórias, e realmente não é meu critério  de toque , sorrisos e amor, escolher pessoas por seu status, e sua carteira.

Chega a parecer cômico, mas na verdade, é trágico. Querem tomar conta da cor do batom, do decote da blusa, dos livros que lê, do seu jeito de falar com seu filho, do tamanho da saia, do seu casamento. Mas não estão do seu lado quando sua casa cai, seu marido te abandona, quando seu coração vira trapo.

A sociedade de forma geral, a mídia, a família, o trabalho querem controlar o que você come, bebe, assiste, e se deixar até a forma como faz sexo.  Te apontam o dedo se está gordo, magro, se tem muitos filhos, se só tem um, se não tem nenhum.  Falam mal de você, e te julgam se é solteiro, se casou, se divorciou, se casou 3 vezes, se separou nas duas. Preconceitos em todo lugar, de todas as formas. Desprezam tua identidade e relevância diante do mundo, e ditam como deve ser seu café, sua panela, e os conselhos fluem como água de nascente. Apontam o inferno como seu destino, e se puderem te jogam lá para provar o quanto você é mau.

Nesse turbilhão de ondas diárias, onde todos precisam ser agradados para que você consiga ser aceito nas diversas tribos que nos consomem, o afogamento passivo é quase certo. Um tipo de suicídio.
Então surge a questão salvadora, como boia lançada ao oceano, depois que todas as forças se foram.
Por quê?

Por que devo aceitar?
Por que devo mudar?
Por quem, em nome de quem?
Por que ser quem não sou?
Por que permitir ser controlado?
Querem mesmo meu bem?

São mesmos teus amigos, e te querem mesmo bem essas tribos que te apontam, denigrem, e querem que mude? Estão do teu lado quando as contas aumentam, o aluguel esta atrasado e chega a ordem de despejo? Elas suportam o peso da tua dor quando seu parente morre, e você não tem paredes para escorar? Esses que apontam seu jeito de falar, e julgam tua religião, estendem as mãos quando você descobre que o diagnóstico dos exames, foi o pior possível?

É tempo de crescer, e perceber quem pode entrar na sua vida, tocar em suas feridas, remexer seu passado. Me considero mulher de sorte,  pois  posso dizer que tem gente que tá do meu lado por que me ama assim mesmo: bagunceira, exagerada, emocionada, um pouco louca. Que me ama com meus surtos, quando xingo, quando choro ou silencio. Que posso ligar de madrugada, posso inventar palavrões, posso desvendar meus segredos.  Esses meus amigos, podem enfiar o dedo na minha alma, podem brigar comigo, e tem até o direito de dizer que as roupas não combinam, e se meter no meu relacionamento amoroso. É porque quando a casa cai, eu sei que posso me escorar em seus braços, e que mesmo com a casa no chão, não vão me deixar cair.  

Os outros, das tantas tribos, que vivem suas vidinhas para enrijecer o braço e apontar para outros, a esses meu desprezo. Não contam mais, não tem direitos, não são nada.

A vida é curta demais pra gente sair dando satisfação pra quem não sabe nem mesmo a cor dos nossos olhos. Vivemos em corda bamba, com altos e baixos, numa correria desesperada pela sobrevivência. Resolvi,por isso, dedicar meu sorriso, minha alegria, meus surtos, canto e tudo a quem é amigo de alma, que se importa, briga com você, e te descansa em um abraço. 

A vida vale a pena, se vivida em sua essência. Seja você mesmo, descombine, descabele, gargalhe, dance... Quem gosta de você, aceita e admira sua autenticidade, na mistura louca dos sufocos cotidianos. 

Viver pode ser simples, mas você tem que se amar e respeitar.
Seja você mesmo.



terça-feira, 20 de agosto de 2013

Anjos Armados



Posso dizer que conheci anjos, mas na verdade não os reconheci como tal nas muitas vezes que os vi. Mas hoje tenho certeza, eles existem.

Infelizmente, é mania nossa, julgar conteúdo pela capa. Costumamos avaliar aparência, escutar a massa, dizer sim para tudo que a mídia diz. Somos convencidos pelo que o vizinho conta, o professor ensina, como verdades absolutas. Não procuramos pesquisar, ver com os próprios olhos, pensar duas vezes antes de multiplicar o mal.

Andamos semeando palavras sujas, julgando classes e raças, colocando tudo no mesmo saco e ateando fogo. Ouvimos por aí:  Educação Pública não ensina, criança pobre não aprende, polícia não presta.

Muita calma nessa hora... Cada um com seu cada um, pois cada classe tem vários tipos de  pessoas, e não é diploma nem concurso que faz caráter. Treinamento não transforma gente má, em gente boa. Certificado não vem com varinha de condão. Ou é, ou não é, Dessa forma, temos de tudo, em todos os lugares.

No entanto, confesso que já julguei. Já tão cansada de ver em televisão, e presenciar mau comportamento de policiais, também jogava tudo no saco. Não prestava e pronto. Todos, sem exceção . Na verdade, como diz o ditado : "fácil é ser pedra, difícil é ser vidraça". E sair falando mal de qualquer um é confortável e sem estresse. Mas é injusto. É covarde.

Já faz alguns meses que ando avaliando minha própria reflexão sobre esse assunto. Bondade, ações do bem não vendem, não dão IBOPE. Mídia gosta de mostrar desgraça, tiro na cabeça, violência, spray na cara, Ah, sim, e existe mesmo maldade aos montes para ser exibida 24 horas por dia. No entanto, a prática da gentileza , do afeto, essa anda bem longe das reportagens, e dos jornais impressos. Você já ouviu no  ônibus pela manhã alguém dizer: "Você viu na Globo ontem, aquele policial que ensinou futebol para as crianças da comunidade?" Não!!! Agora mesmo, enquanto escrevo esse texto passa em todas os comerciais da Globo, sobre o policial afastado que teve excessos e jogou spray de pimenta em jornalista durante a manifestação de 19/08. Violência vende, e amanhã isso será notícia nos jornais e assunto nos trabalhos.

Eu, no entanto, tive a feliz oportunidade de conhecer  um lado nobre do trabalho policial. Tenho visto gestos lindos, realizados bem longe das câmeras. Policiais que doam abraços, roupas, brinquedos e tempos de folga à crianças e pessoas da comunidade. Ganham a mais por isso? Claro que não.




Outro dia, falei com uma querida policial: "Você é minha anja armada. " Ela disse que não existiam anjos armados. Eu disse e repito, sim existem.



Anjos Armados

Semana passada, em uma reunião da UPP- Caju para a Comunidade do bairro, o soldado Castilho me emocionou até a alma. Ele é professor de educação física, e levou alguns de seus alunos para a palestra. Os meninos falavam alto, queriam o lanche da mesa, corriam, e o que eu via, era o sorriso do soldado, um olhar carinhoso, e a palavra que só um mestre pode ter.

Me emocionei quando ele declarou seu compromisso com aquelas crianças, independente de estar como polícial ou não. Afirmou com voz, gestos e coração, que aqueles meninos eram como seus  filhos. Sua palavra era de verdade... o  que ele ganhava a mais com aquilo?

Sabe o que mais me encantou naquela manhã? As crianças estavam à vontade na "casa da polícia". Eram homens e mulheres armados pra todos os cantos (com anjos infiltrados), e eles brincavam. Os policiais lhe chamavam atenção com tanto respeito e carinho... 


Escrevo neste blog aquilo que toca meu coração, que sacode minha alma. Naquela manhã, Soldado Castilho da UPP Caju, me emocionou e me ensinou lições que guardarei para sempre.


 Há com certeza, pessoas do bem, que Deus escolhe a dedo, as farda e as coloca entre tantos outros fardados. Os escolhidos ficam alertas, protegem gente de bem, cidadãos, de noite e de dia. Estes são, os Anjos Armados. 





domingo, 21 de julho de 2013

Não se Deixe Manipular Pelo Gás Lacrimogênio!


Temos as mídias, e precisamos ficar atentos a elas,  saber o que acontece nos bairros, cidades, estados, países, na política... Porém, ainda mais essencial, é que estejamos a par do que acontece no nosso país. Se somos nós que democraticamente elegemos os nossos representantes, àqueles que cuidam de nossa terra, é nosso dever monitorar se eles cumprem o que prometem. Cabe a nós, povo.


E não é que depois, de tantas mutilações, roubos, fraudes e mortes, o brasileiro cansado de ser maltratado, envergonhado, desprezado, desonrado levantou de sua prostração e foi às ruas em protesto?! Nem mesmo o  ópio do brasileiro, representado em junho na Copa das Confederações, não o drogou? Os asfaltos acolheram jovens,  velhos e adolescentes. Cada qual com sua causa e sua história, mas com um mesmo braço forte, e o mesmo brado : Um Brasil bom para sua gente!


Mas o que quero escrever, é o que vem com o manifesto. O que a mídia mostra é segundo suas próprias intenções,e muitas vezes não é fiel aos fatos (não é novidade). É por isso que é necessário  ouvir mais que uma rádio, ler montes de jornais, ter acesso a opiniões diferentes, abrir mãos de pensamentos de esquerda e direita... Vivemos dias como os que lemos nos livros de história, só que em uma nova roupagem. Os olhos precisam estar abertos e os ouvidos bem atentos, para a gente não julgar errado, não xingar injustamente, não cuspir no rosto de quem nos defende.


Tenho a impressão de que a mídia coloca a polícia contra o povo, e o povo contra a polícia e muda o foco de tudo! A briga agora virou contra o gás lacrimogênio! Povo, povo, povo! Presta atenção na tramoia disso aí! A briga do povo não é contra polícia não, a briga do brasileiro é contra quem manda, quem governa, quem dá a ordem, e quem dá a ordem na polícia está bem acima da polícia!








 Polícia é povo também, e sofre também. E gente como a gente, e tem família, filho, mãe... E vou contar uma coisa que vi esses dias que vai chocar você. Tenho uma amiga que é  polícia militar, concursada há pouco tempo, e trabalha no jacaré, famosa favela recém pacificada do Rio de Janeiro. Ela é da Unidade de Polícia Pacificadora. Outro dia, a gente estava debatendo sobre salário e eu disse que a polícia pacificadora ganhava bem. Foi então que ela me contou seu salário. Como não acreditei, ela me fez entrar na internet, entrar no site da PMERJ e eu mesma digitei seu login e senha. O Soldo do soldado é 512, 91 (quinhentos e doze reais e noventa e um centavos) e como gratificação por ser UPP, ganha 700,00 (setecentos reais). Não acredita? Pois é, a gratificação do PM, sem ser da UPP é de 300,00 (trezentos reais). Possivelmente você não vai acreditar. Provavelmente irá até o Google e irá procurar, e vou te alertar, não é fácil achar, porque a manipulação é grande!!! Faz o seguinte!! Procure uma polícia da UPP, ou um PM, e pergunte pra ele, fale direto com a fonte, pede um contracheque. É até humilhante perguntar... Pois esta pessoa que defende tua cidade, tua família, ganha como salário, soldo, o que quiserem chamar... menos que um salário mínimo...



De qualquer forma procurei em sites e comunidades,  faces e blogs, e encontrei muitos desabafos dessa classe que sofre toda forma de preconceito. Nas manifestações, eles estão ali para fazer o trabalho que lhes é devido, e zelar pelo patrimônio público e particular... Se bem que, acho que eles também deveriam ir pra rua. Se estão preparados para situações de conflito? Se estão preocupados com as contas de casa? Se saem estressados, irados e sobretudo armados para trabalhar? Isso deixo pra vocês pensarem , responderem... Pode alguém te defender ganhando isso?



Enfim, eu estava com esse valor de soldo entalado na garganta desde que o li. É que essa palhaçada de virar o jogo das manifestações está me aborrecendo muito. Gente, não estamos lutando entre nós. Nossa luta é muito maior, não podemos perder o foco, até no ano que vem, onde nossa resposta mostrará que o povo brasileiro mudou pra valer!



O caso da violência no Leblon, bairro nobre do Rio de Janeiro, foi o mais falado da semana. Antes dele, os Direitos Humanos se colocou contra a polícia pelo excesso de força e muito gás lacrimogênio na hora de dispersar os manifestantes ou vândalos aproveitadores. Assim, o que se falava não era mais de justiça, de direitos, de corrupção, mas contra a polícia. O foco era : Polícia Truculenta!



A Polícia então,  não seguiu os manifestantes (vândalos) exaltados que destruíram a Rua Ataulfo de Paiva, Leblon, trazendo grandes danos aos comerciantes e moradores. Logo de manhã, a cúpula da polícia se reuniu com os governantes, a cidade estava triste, e os Direitos Humanos foram culpados.



Atenção! Muito cuidado com a manipulação. Isso tudo é muito maior que a gente pensa. Nossos olhos se viram para um lado, para o outro, e de repente nem sabemos mais em que lugar estamos. Não estamos contra a polícia. Não estamos contra os Direitos Humanos. Estamos a favor da Pátria Amada, do bem do povo, dos nossos direitos. Estamos lutando pelo bem dos professores, dos médicos, das crianças,dos jovens, dos idosos, e também de quem protege  a todos nós: a polícia.


Vi o vídeo abaixo, fazendo minha pesquisa e me arrepiei.
É a polícia em São Paulo, sentando junto com os manifestantes, lindo!

Compartilhe meu blog nas redes, e não perca o foco!



video

(Vídeo de Cauê Fantone - youtube)

Você viu essa cena no canal que você costuma assistir?

Reportagem do SBT e comentários de policiais com  desabafo do autor do blog e relato dos salários
http://blogdaverdaderj.blogspot.com.br/2013/02/por-que-rede-globo-nao-mostra-isso.html



sábado, 20 de julho de 2013

Cada Grito, é meu Também!



Somos feitos de fases, como dizia minha amada Cecília Meireles. "Tenho fases como a lua..." Ainda bem. E a minha agora, é de não me importar com o que as pessoas pensam do que falo. Cheguei finalmente no momento em que consigo expor o que penso. Tenho nojo de ouvir certas pessoas, e tenho que me contorcer em  ter a boa educação de respeitá-las. 


Sou mais uma brasileira, mais uma mulher, mais uma mãe, mais uma filha, mais uma professora, mais um número nesse país. Eu sinceramente me sinto representada em cada uma das causas gritadas nas ruas nos quatro cantos desse país, ainda que a causa não seja a minha própria. Eu me vejo espelhada nos olhos dos caminhoneiros, nos braços erguidos dos médicos. Minha voz ecoa no grito dos metalúrgicos, nos passos dos estudantes, no desespero dos enfermeiros... 




Tenho minhas histórias pessoais, àquelas que sofri, na pele e na alma, às que vi e compartilhei e sofri, comovi. Já estive em hospital  particular e público com meu filho quando era pequeno, e nos dois  fomos tratados pior que cachorros fedidos. No particular, quando o dinheiro acaba. No público, você não existe, não é ninguém, não é nada. O sentimento é que você realmente não vale nem um centavo. 


Vemos por aí crianças na rua, e o acaso com velhos... 
E pelo amor de Deus, não está adiantando para os governantes as pessoas irem para as ruas, os hospitais continuam negligenciados, as mulheres continuam parindo nas portas dos hospitais. Isso parece história de terror, mas é real, e ainda passa na televisão. E não adianta passar na televisão, continua sem acontecer nada! A situação está tão absurda, tão crítica que mesmo a mídia mostrando, nada se move!


Eu trabalho em frente à uma comunidade de pessoas invisíveis!!! 
A indignidade é tanta lá, que sinto dificuldade em colocar isso em palavras. Sei que existe isso no mundo, eu sei,,, mas ali elas estão ao meu lado. Eu as vejo, elas tem nome, eu escuto o choro daqueles bebês... Eles merecem menos que meus irmãos pequenos? São menos especiais que meus sobrinhos? Elas realmente podem viver daquele jeito? E a constituição com seus direitos sobre moradia, cidadania, e todas aquelas palavras lindas?

Aquelas famílias não tem saneamento básico,  elas dividem o mesmo tanque improvisado. Neste tanque elas tomam banho, lavam a louça, lavam a roupa, lavam os cabelos, lavam as fraldas das crianças, suas calcinhas de menstruação, preparam suas comidas, escovam os dentes... várias pessoas, homens, mulheres, crianças e seus muitos bebês.

O pobre não tem importância. Só na hora de votar. Aí ele é número, e a esperança de um teto, ou até da comida do dia seguinte o compra. 


Então vemos nossos "representantes" falando do alto de seus lugares seguros. Encontram-se em estados inabaláveis. Esquecem-se que tudo nesse mundo tem começo, meio e fim. As vezes, com grande velocidade. Para sempre, somente as memórias.  E quais são as  memórias que estão nos deixando? 


Aqueles a quem nós demos o poder de governar  sobre nosso dinheiro,  governar nossa saúde, nossa educação e   o futuro de nossos filhos viram as costas para nós e se refugiam em seus carros blindados e suas casas fortes.


Quanto a nós, continuamos reféns, em nossas casas desprotegidas, sem acesso à uma saúde decente, sendo obrigados a ver pais e filhos sofrerem no momento de sua maior fragilidade... alguns vendo os seus mais amados morrerem na porta dos hospitais, tendo a porta fechada em suas caras. Um Brasil negado, covarde, que exclui seus filhos, os que nasceram em seus verdes pastos...


E que não nos deixe a fé, pois precisamos dela desesperadamente.


O povo que sai às ruas me representa, cada grito, também é o meu.






domingo, 30 de junho de 2013

Colchão para Cinco


Conheci Bárbara, em uma de minhas visitas a favela de paus,próxima a creche que trabalho, construída na rua e escorada no muro de uma empresa de ônibus de viagem.  Eram 9 horas da manhã, e aquela mulher magrinha estava rodeada de crianças. Um pequenino estava agarrado a seu peito murcho, sugando com fome o leite e o sangue da mãe.

Perguntei porque as crianças não estavam na escola. Ela respondeu que não tinha registro.

_ Quem não tem registro?
_ Eu. - respondeu Bárbara - então não posso tirar os registros dele.

A mulher me apontou seus filhos, Davi de 7 anos, Karina de 4 anos e o bebezinho de 1 aninho. Nenhum deles havia frequentado escola. Também não tinham registro de nascimento. Aquela cena, as palavras invadiram minha alma de forma profunda e perturbadora. Embora nenhuma das crianças tivesse idade para ser matriculada na creche que sou gestora, pedi que ela fosse até lá para que eu me informasse sobre como poderia ajudá-la.

A casa de Bárbara era um quarto de madeira, construído ao lado de um contêiner que se escorava no muro. No quarto havia um colchão no chão, e ao lado uma caixinha com os pertences de todos eles: dela, dos 3 filhos e do marido que trabalhava. Não havia banheiro, nem torneira, nem vaso sanitário. Também não havia comida. 


Casa de Bárbara, e seus pertences dentro da caixinha


Em menos de duas horas, ela apareceu na unidade. Ela e seus pequenos. Ofereci lanche a ela e as crianças. Pedi que se sentassem. Liguei para o CRAS, para o Conselho Tutelar, para Defensoria Pública, para CRE, para o CMS. Todos se solidarizaram , mas era preciso ação. Uma amiga da creche a levou para todos esses lugares, e ela conseguiu ter seus filhos matriculados.



Eu, segurando as crianças,Davi ao lado e Bárbara atrás da cadeira. 
Lília, adjunta da creche ao lado direito da imagem.


A questão da certidão de nascimento dela ainda é complicada, pois a mãe dela, falecida, também não tinha. Mas não desistiremos.

Hoje, duas semanas após meu encontro com Bárbara, podemos ver um pouco mais de esperança.
Recolhemos doações na creche e com parceiros, arrecadamos alimento, e seus filhos já estão na escola e na creche. Dr Pablo, do CMS do Caju, vacinou os pequenos, pois a mãe, embora com o cartão de vacinação dos menores, único documento que recebeu da maternidade, encontrava barreiras para vaciná-los. 

Ainda falta tornar esses brasileiros, cariocas, verdadeiros cidadãos. A dignidade para suas vidas precisa ser alcançada. Não possuem identidade, moram onde não há endereço, dormem ao lado de ratos, e fazem suas necessidades em latas. O que o marido ganha não dá para sustentar a família com alimentação durante o mês.

O bebê precisou ser afastado da creche por um tempo pelo doutor, pois sua pele estava muito doente, precisando de cuidados básicos de higiene. O Dr deu amostras grátis para tratamento, e eu lhe disse da dificuldade de cura , pois não havia banheiro para tomar banho.


Eu, segurando o menorzinho


Essa é apenas uma história, das tantas que tenho descoberto ali, com aquele povo sofrido e que está tão perto de mim. Caju, centro da cidade. Inimaginável.

E no meio disso tudo ocorre a Copa das Confederações. Nada teria demais se a prioridade fosse os brasileiros, sua vida, sua saúde, sua educação. Mas enquanto a riqueza é exibida nas poltronas confortáveis do Maracanã, Bárbara, seu esposo, Karina, sua filha, Davi, seu filho, e seu bebezinho compartilham o mesmo colchão rasgado.


Foto interna do Maracanã

Minha consciência me impede de vibrar com a seleção. Eu gosto de futebol, mas gosto mais de saber que o governo do meu país se importa mais com as pessoas do que com o futebol. 


Eu estou falando de  apenas um caso no Rio de Janeiro, na Cidade Olímpica. Não podemos imaginar pelo Brasil afora, em suas secas e enchentes quantos casos existem... 

Como comemorar a alegria de uma Taça, sabendo que todos os dias pessoas morrem, sem ter o que comer? E muitas vezes, irão à terra sem ter conhecido a dignidade.




Peço doação de roupas, principalmente para bebês e crianças para esta comunidade. Também cestas básicas. Quem puder ajudar, com parcerias, ou o que for, me envie um e-mail e entro em contato: ruthalbanita@gmail.com